Deskilling: o piloto automático que atrofia o piloto
Em 2009, o voo 447 da Air France, do Rio de Janeiro para Paris, caiu no Atlântico com 228 pessoas a bordo. Os sensores de velocidade congelaram, o piloto automático se desligou e devolveu o avião à tripulação. A pane durou menos de um minuto, mas os pilotos, profissionais experientes, não conseguiram conduzir manualmente uma situação que estava ao alcance da formação deles. A investigação apontou,
Redação Diário Pantanal
27/10/2026, 13:15

Em 2009, o voo 447 da Air France, do Rio de Janeiro para Paris, caiu no Atlântico com 228 pessoas a bordo. Os sensores de velocidade congelaram, o piloto automático se desligou e devolveu o avião à tripulação. A pane durou menos de um minuto, mas os pilotos, profissionais experientes, não conseguiram conduzir manualmente uma situação que estava ao alcance da formação deles. A investigação apontou, entre os fatores do acidente, a pouca preparação para voar sem a automação. Eles tinham milhares de horas de voo, só que a maior parte delas passada observando o sistema voar.
Esse fenômeno tem nome: deskilling, a perda de uma habilidade por falta de uso. A competência estava lá, um dia. Deixou de ser exercitada e se deteriorou de um jeito particularmente perigoso: em silêncio. Ninguém percebe a perda, porque a automação cobre a lacuna todos os dias. Ela só aparece quando a automação sai de cena, que é justamente o momento mais difícil. A aviação aprendeu a lição, e a resposta dela é instrutiva. Ninguém propôs desligar o piloto automático, uma das maiores conquistas de segurança da história do transporte.
As autoridades passaram a recomendar que os pilotos voassem manualmente com mais frequência. A resposta foi programar, de forma deliberada, o uso das mãos. Agora traga isso para a Inteligência Artificial, porque o que levou décadas para acontecer na cabine está acontecendo em meses no escritório. Um estudo publicado em 2025 na revista científica The Lancet Gastroenterology & Hepatology acompanhou médicos endoscopistas em quatro centros na Polônia que passaram a contar com IA para identificar lesões pré-cancerosas no intestino.
Quando esses mesmos médicos faziam exames sem o auxílio da ferramenta, a taxa de detecção caiu de 28,4% para 22,4% em apenas três meses de uso. Médicos experientes, pouco tempo de exposição, uma perda mensurável numa habilidade que salva vidas. Os leitores desta coluna vão reconhecer o encadeamento. Em “Seu cérebro parou de conferir a IA”, mostrei que o cérebro humano deixa de checar a resposta quando ela soa certa. O deskilling é o passo seguinte, e mais grave: não é só deixar de conferir, é perder a capacidade de conferir.
O profissional que delegou à máquina, por tempo suficiente, a análise do contrato, a conciliação da planilha ou o raciocínio do diagnóstico, um dia olha para a resposta errada e já não tem mais o repertório para perceber que ela está errada. É o estofo, de que falei semanas atrás, se desfazendo por desuso. E há uma segunda face do problema, talvez ainda mais séria para o futuro das empresas. O profissional veterano perde uma habilidade que já teve. O jovem que entra hoje no mercado corre o risco de nunca formá-la.
O estagiário que nunca escreveu a primeira versão de uma peça, nunca fez uma análise na mão, nunca errou e corrigiu uma conta, não perdeu estofo nenhum. Ele simplesmente não construiu. Daqui a dez anos, as empresas vão precisar de profissionais seniores capazes de supervisionar sistemas de IA cada vez mais poderosos, e vão descobrir que a escada que formava esses seniores foi retirada sem que ninguém percebesse. A reação instintiva seria restringir o uso. Não é esse o caminho, assim como não foi na aviação.
O caminho é estrutura. Significa a empresa saber, com clareza, quais competências são críticas e precisam sobreviver à ausência da IA, porque nem todas precisam. Significa criar momentos de prática deliberada, o equivalente corporativo ao voo manual e ao simulador, em que a tarefa importante é feita sem a ferramenta, de tempos em tempos, para que a habilidade continue viva. Significa desenhar os fluxos de decisão críticos de forma que o profissional forme o próprio juízo antes de ver a sugestão da máquina, e não depois.
E significa repensar a formação dos mais jovens, para que a IA acelere o aprendizado deles em vez de substituí-lo. O caso do Air France 447 deixou uma lição que vale muito além da aviação: a automação costuma falhar justamente no momento mais difícil, e devolve o controle ao humano exatamente quando a situação é mais complexa. Com a Inteligência Artificial não será diferente. Ela vai resolver bem o caso comum e devolver para as pessoas o caso atípico, o novo, o que ninguém previu.
A pergunta que deixo hoje é simples: quando a IA da sua empresa devolver o controle, ainda vai ter alguém a bordo que saiba voar?
Fonte: Campo Grande News


