Diário Pantanal
—
Campo GrandeConsultando tempo…

Saúde bucal e doenças neurodegenerativas

O Sr. Antônio, 76 anos, foi diagnosticado com Parkinson há cinco anos. A esposa, dona Lourdes, cuidadora dedicada, notava que ele estava perdendo peso, recusando comida e com um mau hálito persistente que nenhum enxaguante resolvia. Quando finalmente o trouxe ao consultório, encontrei a explicação: dificuldade de deglutir, boca seca pelos medicamentos e uma higiene bucal que se tornara quase impos

Redação Diário Pantanal

20/10/2026, 09:00

Saúde bucal e doenças neurodegenerativas

O Sr. Antônio, 76 anos, foi diagnosticado com Parkinson há cinco anos. A esposa, dona Lourdes, cuidadora dedicada, notava que ele estava perdendo peso, recusando comida e com um mau hálito persistente que nenhum enxaguante resolvia. Quando finalmente o trouxe ao consultório, encontrei a explicação: dificuldade de deglutir, boca seca pelos medicamentos e uma higiene bucal que se tornara quase impossível por causa dos tremores. O sr. Antônio não estava recusando comida por falta de apetite — ele estava com dor e desconforto na boca que ninguém enxergava.

Essa cena se repete em milhares de lares brasileiros. As doenças neurodegenerativas — especialmente o Alzheimer e o Parkinson — transformam profundamente a relação do paciente com a própria boca. E entender essa relação é essencial para quem cuida. Por que a boca sofre nas doenças neurodegenerativas? Tanto no Alzheimer quanto no Parkinson, a saúde bucal é atingida por uma combinação de fatores que se somam e se agravam mutuamente: No Alzheimer: O declínio cognitivo faz o paciente esquecer de escovar os dentes, esquecer como se escova ou simplesmente recusar o cuidado por confusão e agitação.

A capacidade de comunicar dor também diminui — o paciente pode estar com uma cárie avançada ou uma infecção sem conseguir dizer. Estudos mostram que a má higiene bucal em pacientes com demência está associada a um risco aumentado de pneumonia aspirativa, uma das principais causas de morte nessa população. No Parkinson: Os tremores tornam a escovação manual quase impossível. A rigidez muscular afeta os movimentos da mão e da mandíbula. A disfagia (dificuldade para engolir) aumenta o risco de aspiração de alimentos e bactérias.

E a hiper salivação ou, ao contrário, a boca seca causada por medicamentos, cria um ambiente bucal desequilibrado, propenso a cáries e infecções fúngicas. A conexão boca-cérebro, novamente Como já abordamos nesta coluna, a relação entre a boca e o cérebro é de mão dupla. A inflamação periodontal crônica pode acelerar processos neurodegenerativos — bactérias bucais como a Porphyromonas gingivalis já foram encontradas no cérebro de pacientes com Alzheimer. E, no sentido inverso, a doença neurodegenerativa compromete a capacidade de cuidar da boca, criando um ciclo vicioso: o cérebro doente piora a boca, e a boca inflamada piora o cérebro.

O papel do cuidador é decisivo Quando o paciente não consegue mais cuidar da própria boca, a higiene bucal se torna responsabilidade do cuidador. E aqui vale um alerta importante: essa tarefa não é opcional nem secundária. A boca de um paciente com Alzheimer ou Parkinson precisa de atenção diária, adaptada à condição de cada um. 3 Orientações Práticas para Cuidadores: Adapte a técnica à condição do paciente: Para quem tem tremores, use escovas de cabo engrossado ou adaptadores que facilitem a pegada.

Para quem tem dificuldade de abrir a boca, use escovas menores ou dedeiras de gaze. O importante é que a limpeza aconteça, mesmo que de forma diferente da tradicional. Crie uma rotina previsível: Pacientes com demência respondem bem à rotina. Estabeleça horários fixos para a higiene bucal, no mesmo local, com os mesmos objetos. Use comandos simples e demonstrações — mostre como escovar antes de pedir que ele faça. Observe a boca como parte do cuidado diário: Verifique diariamente se há feridas, sangramentos, acúmulo de alimentos ou mau hálito.

Em pacientes que não conseguem comunicar dor, a boca é um dos primeiros lugares onde o sofrimento se esconde. Qualquer alteração deve ser levada ao odontogeriatra. Cuidar da boca de quem tem Alzheimer ou Parkinson é cuidar da dignidade de quem já não consegue cuidar de si. É também proteger o corpo — e o cérebro — de infecções que aceleram a doença. Porque até na neurodegeneração, o sorriso cuidado continua sendo vida que dura.

Fonte: Campo Grande News

Leia também