Primeiro emprego muda vida de jovens, mas 52% das vagas seguem vazias
Comprar uma roupa sem depender dos pais, pagar a internet de casa ou ajudar nas despesas da família. Para Fernanda Nogueira, Thauhanny Ranzula de Oliveira e Luan Henrique Siqueira dos Santos, todos de 16 anos, o primeiro emprego trouxe mais do que dinheiro no bolso. Trouxe independência, responsabilidades e uma rotina dividida entre trabalho e escola. Em Campo Grande, essa experiência continua dis
Redação Diário Pantanal
26/10/2026, 05:45

Comprar uma roupa sem depender dos pais, pagar a internet de casa ou ajudar nas despesas da família. Para Fernanda Nogueira, Thauhanny Ranzula de Oliveira e Luan Henrique Siqueira dos Santos, todos de 16 anos, o primeiro emprego trouxe mais do que dinheiro no bolso. Trouxe independência, responsabilidades e uma rotina dividida entre trabalho e escola. Em Campo Grande, essa experiência continua distante de milhares de adolescentes, enquanto mais da metade das vagas previstas para aprendizagem profissional permanece sem preenchimento.
Dados da Fiscalização do Trabalho fornecidos ao Campo Grande News apontam que, das 5.333 vagas previstas pelas cotas de aprendizagem em 2.080 empresas da Capital, apenas 2.562 estão ocupadas. São 2.771 postos não preenchidos, o equivalente a 52% do total, embora isso não signifique que todas essas oportunidades estejam abertas para contratação imediata. Os três adolescentes conseguiram o primeiro emprego por meio do Instituto Mirim de Campo Grande. Com carteira assinada e salários entre R$ 661 e pouco mais de R$ 800, conciliam o ensino médio com a rotina profissional.
Entre a satisfação de conquistar o próprio dinheiro e o desafio de acordar cedo, pegar ônibus e estudar à noite, descobrem também o peso das responsabilidades que chegam antes da vida adulta. Fernanda, moradora do bairro Maria Aparecida Pedrossian, recebe R$ 793 como auxiliar administrativa no setor de Recursos Humanos do Instituto Mirim. Organiza arquivos, documentos de admissão e informações sobre vale-transporte. Em casa, onde vive com os pais e seis irmãos, o dinheiro tem mais de um destino.
"Gosto bastante de comprar, mas, na maioria das vezes, ajudo a minha mãe. Às vezes, quando ela está apertada e precisa de ajuda, vou lá e ajudo”, conta Fernanda. Além de colaborar nas despesas, compra presentes para os irmãos e algumas coisas para casa. A primeira renda também permite pagar pequenos programas em família. “Gosto de quando chega o sábado à noite e a gente fala: ‘Vamos comer uma pizza? Vamos comer um cachorro-quente?’". Fernanda fez o curso de preparação no ano passado e foi contratada neste ano.
Trabalha de manhã, ajuda nas tarefas domésticas à tarde e estuda à noite na Escola Estadual Dolor Ferreira de Andrade, onde cursa o primeiro ano do ensino médio. Ela diz que a experiência trouxe mais responsabilidade e mudou sua forma de enxergar o esforço da mãe, que trabalha como auxiliar de cozinha. “Quando tive a experiência de viver o que ela vivia, de acordar cedo, pegar ônibus e dormir tarde, entendi como é difícil ser trabalhador”, disse Fernanda. A adolescente pretende cursar Psicologia.
Por enquanto, já se tornou referência para as irmãs menores. “Às vezes, quando chego em casa, as meninas falam: ‘Quando eu crescer, vou trabalhar junto com a Fê’”. Para Thauhanny, moradora do Pioneiros, começar a trabalhar significou conseguir comprar coisas que nem sempre cabiam no orçamento dos pais. “Eu pedia algumas coisas para o meu pai e para a minha mãe, mas eles não conseguiam comprar. Então, queria começar a trabalhar cedo para poder ter aquilo de que gosto”. Aos 16 anos, recebe R$ 661 e usa a remuneração principalmente com roupas e cuidados com o cabelo.
Sua atividade é na banda do Instituto Mirim, onde aprimorou o que já sabia de clarinete e teclado. Segundo ela, o interesse pelo projeto começou aos 8 anos, quando viu um mirim em um ônibus e disse à avó que queria participar. Anos depois, fez a inscrição, passou pela formação e encontrou na música a primeira experiência profissional. Já se apresentou em escolas, eventos e teatros, como o Glauce Rocha e o Dom Bosco. Fora do trabalho, estuda à noite, joga vôlei e fez um curso de tecnologia por meio de uma parceria com o Senai.
Thauhanny considera a rotina puxada, mas diz que consegue se organizar e conta com apoio para enfrentar as dificuldades. “É mais fácil passar por esse processo com apoio do que sozinha”. Para o futuro, também pensa em cursar Psicologia. Já Luan, morador do Isabel Garden, recebe pouco mais de R$ 800. Parte vai para roupas e parte ajuda a mãe e a avó com despesas domésticas. Às vezes, é ele quem paga a internet. “Agora tenho meu próprio dinheiro e não dependo tanto da minha mãe e da minha família.
Consigo ser mais independente”. No setor de comunicação do Instituto, fotografa atividades, organiza imagens e ajuda a produzir publicações. Chegou sem dominar essas tarefas e aprendeu durante a experiência. “Cheguei aqui sem saber nada. Me ensinaram, e aprendi bastante”, conta. O trabalho despertou interesse por design gráfico, mas o plano para a faculdade continua sendo Odontologia. A rotina, porém, cobra descanso. Luan acorda entre 5h15 e 5h30 e relata noites com cerca de seis horas de sono.
Depois de voltar da escola, ainda precisa jantar antes de dormir. "Acabo dormindo mais tarde e descansando menos. Aí fico um pouco cansado”, afirma. Mesmo assim, valoriza o que aprendeu: “A recompensa, além de ser financeira, também está no aprendizado”, revela Luan. Pode, mas com proteção - A procuradora-chefe do MPT-MS (Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul), Cândice Arosio, explica que o adolescente pode ser contratado como empregado regular a partir dos 16 anos.
Aos 14 e 15, o ingresso permitido é pela aprendizagem profissional. A aprendizagem envolve a empresa, o adolescente e uma entidade formadora, responsável pelas aulas teóricas. Uma parte da jornada é dedicada à prática e outra à formação. “É como se estivesse recebendo para estudar também”, resume. Ter menos de 18 anos exige proteção mesmo quando a contratação ocorre fora da aprendizagem. Não são permitidos trabalhos perigosos, insalubres ou noturnos, nem atividades que prejudiquem o desenvolvimento do adolescente.
A carteira assinada, sozinha, não torna qualquer função adequada à idade. “O aprendiz também é registrado, com anotação na carteira de trabalho”, destaca Cândice. A diferença é que, a partir dos 16, o contrato regular não depende da participação de uma entidade qualificadora. Na aprendizagem, a remuneração deve respeitar, no mínimo, o salário mínimo por hora. Também há direito a 13º salário, férias, vale-transporte e FGTS, com depósito de 2%. Quem ainda não concluiu o ensino médio precisa estar matriculado e frequentando a escola.
A jornada é, em regra, de até seis horas diárias. Pode chegar a oito para quem concluiu o ensino fundamental, desde que as aulas teóricas estejam incluídas nesse período. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) proíbe prorrogação e compensação da jornada do aprendiz. Quem oferece oportunidades - Segundo a diretora-presidente do Instituto Mirim, Patrícia Saraiva de Moraes, a instituição reúne mais de 150 parceiros e tem cerca de 700 aprendizes trabalhando. Os contratantes incluem escritórios de advocacia, clínicas, comércios, indústrias e órgãos públicos.
Entre os exemplos citados estão Santa Casa, Semalo, Defensoria Pública e Tribunal de Justiça. Conforme Patrícia, os adolescentes encaminhados pelo Instituto desenvolvem atividades administrativas. Nos casos de empresas com ambientes de risco incompatíveis com a idade, existem contratos em modalidade alternativa: a empresa contrata, mas o adolescente realiza as atividades em outro local. A diretora relata que a redução das oportunidades oferecidas pelo município e pelo Estado levou a instituição a buscar mais parceiros privados.
A procura supera 4 mil inscrições, enquanto a previsão para o ingresso de 2027 é de aproximadamente 1.300 vagas de formação. A contratação posterior depende das oportunidades disponíveis. Antes do encaminhamento, os adolescentes participam do curso de Noções Básicas para o Trabalho, com duração de dois meses e encontros três vezes por semana. Aprendem comunicação, postura profissional, ética, organização empresarial e informática. No entanto, a formação e o emprego precisam caber na rotina sem afastar o adolescente da escola.
Patrícia explica que, na organização dos horários dos parceiros do Instituto, muitos acabam procurando matrícula no período noturno para conciliar as atividades. Segundo ela, há dificuldades para encontrar vagas e preocupação das famílias com os deslocamentos. Estudar à noite, porém, não é uma exigência geral da legislação da aprendizagem: o programa deve respeitar o horário escolar. A permanência nos estudos também diferencia a oportunidade protegida das situações de exploração.
Conforme o Campo Grande News noticiou, levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referente a 2025 mostrou que apenas 79,6% dos adolescentes de 16 e 17 anos em situação de trabalho infantil frequentavam a escola, contra 89,6% entre todos os brasileiros dessa idade. Embora o levantamento tenha registrado redução nas ocupações classificadas entre as piores formas de trabalho infantil, elas ainda alcançavam 525 mil crianças e adolescentes no país.
Para Patrícia, oferecer aprendizagem, acompanhamento e apoio às famílias é uma forma de enfrentar essa realidade. Além da formação, o Instituto disponibiliza alimentação e atendimento odontológico, psicológico e social. “Além de acolher o adolescente, o Instituto Mirim acolhe a família, conversa e orienta. Não apenas qualificamos e encaminhamos para o trabalho”, afirma. Como participar - As inscrições do Instituto Mirim para ingresso em 2027 seguem até as 23h59 de 6 de novembro, pelo site de seleção .
Podem participar adolescentes nascidos entre 1º de janeiro de 2011 e 30 de junho de 2012, matriculados e frequentando o ensino regular. São solicitados documentos do adolescente e do responsável, comprovantes de NIS (Número de Identificação Social), boletim escolar e informações sobre renda e residência. A seleção inclui entrevista social, e o ingresso no curso não significa contratação imediata. O MPT atua com a Fiscalização do Trabalho para cobrar o cumprimento das cotas de aprendizagem.
Suspeitas de exploração e contratação irregular podem ser encaminhadas pelo canal de denúncias do órgão. Casos de trabalho infantil também podem ser comunicados pelo Sistema Ipê ou pelo Disque 100.
Fonte: Campo Grande News



