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O gari que sonhava ser médico e deixou uma história além da tragédia

A história de Patrick Revert Borborema poderia ser a de qualquer brasileiro. Mas, como cada um é universo, tinha suas particularidades. Uma delas, bastante simbólica, é que desde 2016, estudava para se juntar profissionalmente ao pai e às duas irmãs, médicos em Minas Gerais. Entre avanços e paradas na formação, estava no quinto ano da faculdade de Medicina no Paraguai, até uma fatalidade interromp

Redação Diário Pantanal

24/10/2026, 08:45

O gari que sonhava ser médico e deixou uma história além da tragédia

A história de Patrick Revert Borborema poderia ser a de qualquer brasileiro. Mas, como cada um é universo, tinha suas particularidades. Uma delas, bastante simbólica, é que desde 2016, estudava para se juntar profissionalmente ao pai e às duas irmãs, médicos em Minas Gerais. Entre avanços e paradas na formação, estava no quinto ano da faculdade de Medicina no Paraguai, até uma fatalidade interromper tudo: aos 48 anos, Patrick morreu esta semana, em Ponta Porã, atropelado pelo caminhão de coleta de lixo, ao cumprir sua rotina diária de trabalho como gari.

Terminava, de forma trágica, o sonho de muito tempo, que fez Patrick cruzar os quase 2 mil km de Jaíba (MG) - cidade mineira conhecida pela produção de banana e outras frutas - até a fronteira entre o Brasil e o Paraguai, polo de faculdades de Medicina com preços mais atrativos. Nunca foi fácil. Após adolescência e a juventude marcada por desafios e obstáculos, pedras no caminho comuns à vida do brasileiro, o fim da graduação estava perto, previsto para 2027. Em Minas Gerais, a família recebeu com surpresa e evidente tristeza a ligação do setor de assistência social da prefeitura de Ponta Porã informando da notícia triste.

"Vestia o uniforme e o jaleco com dignidade, sem se sentir superior por fazer Medicina ou inferior por trabalhar na coleta de lixo. Para ele, o valor estava na honestidade e não no prestígio", diz um trecho de texto escrito pelos familiares de Patrick, a pedido da reportagem do Campo Grande News. Funcionário da prefeitura, Patrick trabalhava na coleta de lixo havia cerca de quatro anos. Há pouco mais de um ano e meio, era servidor concursado, com um salário em torno de R$ 2,2 mil.

Para se manter, além do emprego público, vendia sabão e fazia serviços de polimento de veículos como complemento de renda. A família também recorda o envolvimento dele em atividades voluntárias. "Sua grandeza também se revelava no cuidado com o próximo. Prestava serviços voluntários em asilos, ajudava pessoas em situação de rua e dedicava-se à causa animal", relata a família. Nas redes sociais, Patrick também costumava publicar textos com mensagens positivas e reflexões sobre a vida.

Uma das postagens, enviada à reportagem, tem palavras de incentivo sobre a importância de seguir em frente diante das dificuldades. Colegas de trabalho confirmam a referência positiva dos parentes. O engenheiro Luciano Franco, chefe do setor de coleta de lixo, conta que Patrick Borborema era conhecido entre os colegas pelo bom relacionamento e pela dedicação ao trabalho. Quando a turma precisava de algo, era ele o primeiro a se oferecer para tentar resolver a questão. Segundo Luciano, Patrick também mantinha uma rotina de cuidados com a saúde e a alimentação.

Preparava as próprias refeições para levar ao trabalho, tinha hábitos alimentares cuidadosos e procurava manter uma vida regrada. O chefe do setor também descreveu o gari como uma pessoa alegre, de amizades fáceis e de bom humor frequente. Para ele, o sorriso frequente nas fotografias de Patrick refletia uma característica marcante de sua personalidade. Legado - Na mensagem enviada ao Campo Grande News , a família fala da dificuldade de lidar com a perda, especialmente quando Patrick estava próximo de concluir a faculdade.

Ao mesmo tempo, pede que sua trajetória não seja lembrada apenas pelas circunstâncias da morte. "Ele era gari, estudante de Medicina, pai, filho, irmão, amigo e defensor de tantas causas. Fica a dor de perda, mas o orgulho de saber que ele se tornou alguém capaz de tocar tantas vidas", escreveram os familiares. Patrick deixou três filhos adultos, duas mulheres e um homem. Para a família, a escolha de trabalhar na coleta de resíduos enquanto estudava para ser médico é parte importante da história que deseja preservar.

"À sociedade, fica uma história que deve ser lembrada não apenas pela tragédia, mas pela beleza de sua caminhada. Que seu nome seja associado à humildade, à solidariedade, à superação e ao amor ao próximo", conclui a homenagem.

Fonte: Campo Grande News

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