Laboratório produzia emagrecedor com droga proibida e alucinógena
A busca por emagrecimento rápido alimentava uma rede clandestina de distribuição de medicamentos produzidos com clobenzorex, substância psicotrópica proibida no Brasil e capaz de causar dependência. O esquema, investigado pela PF (Polícia Federal), levou à prisão do sargento da reserva da PM (Polícia Militar) Marcos Roberto da Silva, de 54 anos, e da esposa, Valdenice Silveira Goes, de 48, nesta q
Redação Diário Pantanal
23/10/2026, 15:15

A busca por emagrecimento rápido alimentava uma rede clandestina de distribuição de medicamentos produzidos com clobenzorex, substância psicotrópica proibida no Brasil e capaz de causar dependência. O esquema, investigado pela PF (Polícia Federal), levou à prisão do sargento da reserva da PM (Polícia Militar) Marcos Roberto da Silva, de 54 anos, e da esposa, Valdenice Silveira Goes, de 48, nesta quinta-feira (22), em Dourados. O casal é suspeito de fabricar e fornecer os produtos a intermediários responsáveis por distribuí-los na região.
As investigações começaram com a abordagem de uma técnica de enfermagem pela PRF (Polícia Rodoviária Federal). Ela transportava medicamentos destinados a terceiros, sem prescrição médica. Na ocasião, os policiais ainda não sabiam exatamente quais substâncias estavam presentes nos produtos apreendidos, o que inviabilizou a prisão dela em flagrante. A identificação ocorreu posteriormente, por meio de exames periciais. A análise encontrou clobenzorex entre os componentes dos medicamentos.
A substância pertence à família das anfetaminas, atua como estimulante do sistema nervoso central e já foi utilizada em medicamentos anorexígenos, destinados à redução do apetite. Desde março de 2021, o clobenzorex integra a lista F2 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que reúne substâncias psicotrópicas de uso proibido no Brasil. Na mesma relação está o LSD, droga alucinógena. Isso não significa que as duas substâncias tenham os mesmos efeitos, mas que estão sujeitas à proibição prevista nas normas sanitárias brasileiras.
Com o resultado da perícia, os investigadores avançaram na identificação dos responsáveis pelo fornecimento dos produtos. Descobriram que a técnica de enfermagem seria uma das intermediárias de uma rede de distribuição de medicamentos clandestinos, principalmente aqueles comercializados para pessoas interessadas em perder peso. Segundo a Polícia Federal, parte dos medicamentos distribuídos pela profissional era adquirida do grupo investigado na operação de quinta-feira. Os fornecedores também abasteciam outras pessoas da região, que repassavam os produtos aos consumidores.
Os medicamentos eram comercializados no mercado informal, sem identificação adequada e sem exigência de receita médica. Dessa forma, quem comprava os comprimidos não tinha garantia sobre a composição, a concentração das substâncias ou os riscos associados ao consumo. A investigação aponta que o público inicialmente visado era formado por pessoas interessadas em emagrecer rapidamente. A preocupação dos policiais, entretanto, vai além da comercialização irregular. Como o clobenzorex pode provocar dependência, os consumidores também ficam expostos ao risco de continuar utilizando a substância pelos efeitos que ela provoca no organismo.
Laboratório clandestino A identificação dos fornecedores levou os investigadores a uma casa localizada na Rua José Stroppa, no Jardim Hilda, região sul de Dourados. No imóvel, pertencente ao policial militar da reserva, funcionava uma estrutura clandestina destinada à fabricação de medicamentos. Durante a Operação Remédio Proscrito, a Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal. A ação contou com a participação da PRF e apoio da Polícia Militar.
No laboratório, os policiais encontraram equipamentos, substâncias ilícitas, embalagens e insumos utilizados na fabricação dos comprimidos. O material apreendido permitiria produzir pelo menos 15 mil unidades, conforme informações levantadas pelo Campo Grande News . Os medicamentos eram comercializados em frascos com 15 comprimidos, vendidos por R$ 100. O preço inferior ao de outros produtos utilizados para emagrecimento ajudava a atrair consumidores. A comercialização dos medicamentos clandestinos chama a atenção também pela localização do esquema.
Mesmo com a facilidade de acesso a emagrecedores injetáveis vendidos no Paraguai, país vizinho a Dourados, os comprimidos falsificados à base de uma substância proibida no Brasil encontravam espaço no mercado informal da região. A procura pelos produtos indica que os medicamentos clandestinos continuavam sendo uma alternativa para consumidores interessados em perder peso rapidamente, apesar da oferta de injetáveis utilizados para emagrecimento no comércio paraguaio. A apuração também identificou indícios de que o esquema funcionava havia pelo menos dez anos.
A análise do celular apreendido com a técnica de enfermagem revelou uma lista com pelo menos 400 compradores, informação que contribuiu para identificar os suspeitos de fornecer os medicamentos. Marcos Roberto e Valdenice foram presos em flagrante e encaminhados à Delegacia da Polícia Federal em Dourados. Ambos foram autuados com base na Lei de Drogas e vão passar por audiência de custódia ainda nesta sexta-feira. Riscos à saúde O clobenzorex é uma substância sintética derivada da família das anfetaminas.
Seu efeito estimulante sobre o sistema nervoso central pode diminuir a sensação de fome, aumentar o estado de alerta e reduzir o sono. Essas características explicam sua utilização em produtos clandestinos vendidos como emagrecedores e também em comprimidos estimulantes conhecidos popularmente como rebites. O consumo pode provocar ansiedade, insônia, aceleração dos batimentos cardíacos, alterações da pressão arterial e dependência. Em situações de uso abusivo, os riscos à saúde aumentam, especialmente para pessoas com problemas cardiovasculares.
O perigo é agravado pela fabricação clandestina. Diferentemente dos medicamentos produzidos sob controle sanitário, os comprimidos ilegais não oferecem garantias sobre a quantidade de princípio ativo presente em cada unidade. Também podem conter outras substâncias não informadas ao consumidor. Relatório de química forense da própria Polícia Federal, referente a 2023, identificou clobenzorex em 19 casos envolvendo medicamentos examinados em laboratório. Em nenhum deles a presença da substância era declarada na composição dos produtos.
O documento também relaciona o clobenzorex ao uso abusivo de anorexígenos e estimulantes, inclusive nos comprimidos conhecidos como rebites. Investigação continua A Polícia Federal trabalha agora para identificar outros integrantes da rede de distribuição, descobrir a origem das substâncias utilizadas na fabricação dos medicamentos e interromper o abastecimento do mercado clandestino. Uma das frentes da investigação é esclarecer como os produtos chegavam aos intermediários e quantas pessoas participaram de sua comercialização.
A polícia também busca estabelecer a extensão da rede que abastecia consumidores interessados em medicamentos para emagrecimento. O objetivo é identificar os responsáveis pelas diferentes etapas do esquema, desde o fornecimento das substâncias proibidas até a entrega dos comprimidos aos compradores, e impedir que os produtos continuem circulando na região.
Fonte: Campo Grande News


