Fora dos cemitérios, túmulos resguardam histórias de fé e afeto em MS
Quando quer visitar a tataravó, Vânia Lúcia Batista Duarte tem como destino a Igreja de São Benedito, no centro da comunidade de Tia Eva, em Campo Grande. À esquerda da entrada principal está a sepultura da matriarca. No entorno vivem seus descendentes. A mulher que fundou a comunidade permanece no território onde sua história continua sendo contada pela família. Na Paróquia São José, também na Ca
Redação Diário Pantanal
02/11/2026, 08:15

Quando quer visitar a tataravó, Vânia Lúcia Batista Duarte tem como destino a Igreja de São Benedito, no centro da comunidade de Tia Eva, em Campo Grande. À esquerda da entrada principal está a sepultura da matriarca. No entorno vivem seus descendentes. A mulher que fundou a comunidade permanece no território onde sua história continua sendo contada pela família. Na Paróquia São José, também na Capital, o túmulo de padre João Crippa fica à direita de quem entra pela porta principal.
Ali, cartazes e placas registram agradecimentos por milagres que os fiéis atribuem à sua intercessão. Durante a visita da reportagem, o pároco Paulo Roberto de Oliveira mostrou as homenagens, testemunhos da devoção que atravessou as décadas. Em outras igrejas de Mato Grosso do Sul, sepulturas também preservam trajetórias ligadas à história das cidades. Algumas recebem familiares, devotos e turistas. Outras têm acesso restrito. Neste Dia de Finados, esses lugares revelam diferentes maneiras de manter os mortos próximos da vida das comunidades.
Para Vânia, neta de Antônio Batista, um dos netos de Tia Eva, a sepultura na igreja permite reverenciar a tataravó e apresentar sua história a quem chega. “As pessoas que queiram saber mais da tia Eva vêm até a nossa comunidade e a gente sempre apresenta esse espaço como um espaço sagrado da nossa comunidade.” Por enquanto, as visitas precisam esperar. A igreja está fechada para reformas e deve reabrir a partir de 11 de novembro, com uma festa que celebrará o centenário da morte da matriarca.
Segundo Vânia, o túmulo também recebeu melhorias durante a restauração, mas permanece no mesmo lugar. A cidade cresceu ao redor - Antes de estar dentro da igreja, Tia Eva foi sepultada em um cemitério ao lado do templo. Era ali que familiares e moradores eram enterrados, conta Vânia. A comunidade nasceu em uma área rural, com poços, criação de galinhas e cercas nos lotes. O crescimento de Campo Grande mudou os hábitos e a organização do território. Vieram a regularização da rua e o asfalto.
Nesse processo, segundo a descendente, o cemitério foi desativado. Enquanto os demais foram para outro cemitério da cidade, as lideranças mais antigas decidiram transferir os restos mortais de Tia Eva para a igreja. Hoje, Vânia reconhece nessa decisão uma forma de preservar a proximidade com a matriarca, que morreu em 11 de novembro de 1926. “Hoje sim é uma homenagem à tia Eva, esse reconhecimento à matriarca que nós temos, porque a igreja foi ela que construiu, a comunidade foi ela que construiu.” O lugar, que também recebe visitantes interessados na história de Tia Eva, reúne a memória familiar e a trajetória coletiva.
Para o historiador professor Mestre Fábio William de Souza, essa relação ajuda a compreender o significado da sepultura. “A comunidade não recorda apenas a pessoa, mas também sua obra, sua liderança e os valores que ela representava.” O pesquisador aproxima essa interpretação das tradições das irmandades negras, associações religiosas que ofereciam assistência aos seus integrantes, incluindo a organização de funerais e sepultamentos dignos. A comparação não estabelece que Tia Eva tenha pertencido a uma dessas organizações.
Destaca o valor dos laços comunitários e do reconhecimento de uma liderança. Na leitura de Souza, a igreja pode se tornar também um lugar de preservação da história local, no qual as novas gerações conhecem suas origens. Carinho registrado nas paredes - Na Paróquia São José, os agradecimentos deixados pelos fiéis dão expressão atual ao vínculo com padre João Crippa. Sua causa de beatificação está em andamento, com o inquérito diocesano aberto em outubro de 2026. As manifestações junto ao túmulo pertencem à devoção dos visitantes; não significam, por si, o reconhecimento de milagres pela Igreja.
Padre Paulo Roberto de Oliveira conta que esse carinho já mobilizava a população em 1951. Naquele ano, segundo ele, os restos mortais do sacerdote foram trazidos de Três Lagoas a pedido de moradores de Campo Grande. Uma procissão acompanhou a chegada à igreja, onde o espaço para o sepultamento havia sido preparado. O pároco relata que imagens da época mostram moradores e autoridades nas ruas durante as homenagens. “Eu vejo que foi pelo amor que o povo teve, um pequeno gesto desse povo que ele ajudou tanto.” Fundador do Oratório São José e colaborador na criação do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, Crippa deixou sua contribuição à vida religiosa e à educação da cidade.
Segundo padre Paulo, atuou por cerca de 20 anos em Campo Grande e lançou a pedra fundamental da Paróquia São José em 1939. Nascido em 1º de outubro de 1861, morreu em 1º de agosto de 1951, aos 89 anos. Conforme o pároco, estava hospitalizado em Três Lagoas. A data exata do traslado e o meio de transporte utilizado ainda são pesquisados. Para o professor Fábio do Vale, vice-postulador da causa de beatificação, a presença de sepulturas em templos precisa ser compreendida também dentro da tradição cristã.
Ele explica que, nos primeiros séculos do cristianismo, fiéis desejavam ser sepultados próximos aos túmulos de mártires e santos. A prática, conhecida como sepultura ad sanctos, “sepultamento junto aos santos”, expressava a fé na ressurreição e na comunhão dos santos. Posteriormente, igrejas e basílicas passaram a ser construídas sobre ou perto dessas sepulturas. “A tradição cristã dos sepultamentos em lugares sagrados expressa a fé na ressurreição, a comunhão dos santos, a gratidão pela vida daqueles que serviram à Igreja e a esperança da vida eterna.” Segundo o vice-postulador, atualmente os sepultamentos dentro de igrejas seguem regras mais restritivas, com normas e autorizações próprias para situações especiais.
Uma lápide sem visitação pública - Na Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Abadia, na Paróquia Santo Antônio, em Campo Grande, está sepultado dom Antônio Barbosa, primeiro bispo e primeiro arcebispo da cidade. A reportagem solicitou acesso para fotografar o local. A igreja encaminhou uma imagem da lápide e informou que o local não é aberto ao público. Ao lado do brasão episcopal, a inscrição resume a homenagem: “Amou a Igreja. Morreu por ela”. Dom Antônio assumiu a Diocese de Campo Grande em maio de 1958 e tornou-se o primeiro arcebispo em 1978.
Deixou o exercício de suas funções em dezembro de 1986 e retornou a São Paulo (SP), onde morreu em 3 de maio de 1993, aos 81 anos. Seu corpo foi trasladado para Campo Grande e sepultado sob o altar da catedral. O percurso se estende a outras cidades do Estado. Em Dourados, o historiador Fábio William de Souza cita a sepultura de dom Teodardo Leitz na cripta da Catedral Imaculada Conceição. Em Corumbá, a relação com uma sepultura na igreja também passa pelo interesse de quem visita a cidade.
Na Catedral de Nossa Senhora da Candelária estão os restos mortais de dom Vicente Bartolomeu Maria Priante, fundador da Congregação das Irmãs de Jesus Adolescente e quinto bispo da diocese. Falecido em São Paulo em 1944, aos 61 anos, ele teve seus restos mortais trasladados para Corumbá em 1946. Uma reportagem do Diário Corumbaense, publicada em 2017, registra que a sepultura ficava em uma das paredes do templo. Durante a reforma da catedral, os restos foram retirados e acondicionados em uma urna doada pela comunidade.
Na ocasião, o então pároco Fábio Vieira explicou que ela seria recolocada no mesmo local, com um vidro que permitiria observá-la. Hoje, segundo informação repassada pela paróquia à reportagem, além de fiéis, a sepultura também é visitada por turistas conduzidos à catedral por um guia local. A trajetória de dom Vicente Priante também se liga a Campo Grande. Em 1939, quando era bispo de Corumbá, ele fundou a Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Bairro Amambaí, na Capital, hoje Santuário Estadual de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Para o arquiteto e escritor Fábio Fernando Martins, a escolha de um lugar de sepultamento pode transformar o túmulo em símbolo de memória coletiva, poder ou reconhecimento público. Em igrejas e monumentos, essa presença pode associar uma pessoa a valores e acontecimentos que uma comunidade deseja preservar. As diferenças - Conforme o historiador Fábio William de Souza, o significado desses lugares mudou ao longo do tempo. Souza explica que, durante séculos, o sepultamento dentro das igrejas tinha grande valor religioso.
A proximidade com o altar e os espaços sagrados era associada à esperança de salvação. Souza afirma que a distribuição das sepulturas também expressava diferenças sociais. Os locais próximos ao altar eram mais valorizados e frequentemente destinados a pessoas com maior prestígio ou recursos financeiros. Irmandades mantinham áreas para seus membros, enquanto os mais pobres podiam ser enterrados em espaços menos valorizados ou externos. “A morte não eliminava as diferenças sociais: elas eram reproduzidas no interior dos templos”, afirma.
Segundo o pesquisador, as divisões raciais da sociedade escravista também atravessavam os espaços religiosos. Irmandades negras construíam suas próprias igrejas e organizavam assistência religiosa e funerária, criando vínculos de apoio e pertencimento. A partir do final do século XVIII e, sobretudo, durante o XIX, os enterros em templos e áreas urbanas passaram a ser contestados por médicos e autoridades. O pensamento higienista da época atribuía à decomposição dos corpos a produção de “miasmas”, considerados capazes de transmitir doenças.
Essa concepção sustentou a defesa de cemitérios separados dos espaços de culto. Conforme Souza, a mudança encontrou resistência. O pesquisador menciona a Cemiterada, ocorrida em Salvador, em 1836, quando uma multidão destruiu o recém-inaugurado Cemitério do Campo Santo. Com base nos estudos do historiador João José Reis, explica que a revolta envolvia crenças sobre a salvação, o papel das irmandades nos funerais e a oposição ao monopólio concedido a uma empresa privada para realizar os sepultamentos.
Na análise do historiador, quando diversas cidades da região que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul intensificaram seu crescimento, os enterros em igrejas já vinham sendo restringidos. Compreender essas histórias, ressalta o historiador, exige distinguir os registros do passado, as lembranças transmitidas pelas comunidades e as experiências religiosas. “O papel do historiador não é confirmar nem negar a fé de uma comunidade, mas compreender como essa fé foi construída, transmitida e preservada ao longo do tempo.” Na comunidade de Tia Eva, essa transmissão acontece quando os descendentes apresentam a igreja, contam a trajetória da matriarca e mostram onde ela permanece.
Para Vânia, a importância do lugar cabe na possibilidade de poder voltar. “É o local que a gente pode ir visitar e fazer a nossa reverência à matriarca tia Eva aqui dentro da comunidade que ela criou.”
Fonte: Campo Grande News



