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“Ficou esquecido”, diz amigo que reúne várias obras de Ilton Silva

Oito anos depois da morte de Ilton Silva, suas pinturas voltaram a ganhar espaço em Campo Grande pelas mãos de quem acompanhou de perto seu trabalho. Amigo do artista, o designer de interiores e colecionador Gleiner Rocha reuniu cerca de 12 telas em uma exposição no Hotel Indaiá Park, no Centro da Capital. A homenagem surgiu da vontade de preservar o legado do pintor, filho de Conceição dos Bugres

Redação Diário Pantanal

20/10/2026, 08:15

“Ficou esquecido”, diz amigo que reúne várias obras de Ilton Silva

Oito anos depois da morte de Ilton Silva, suas pinturas voltaram a ganhar espaço em Campo Grande pelas mãos de quem acompanhou de perto seu trabalho. Amigo do artista, o designer de interiores e colecionador Gleiner Rocha reuniu cerca de 12 telas em uma exposição no Hotel Indaiá Park, no Centro da Capital. A homenagem surgiu da vontade de preservar o legado do pintor, filho de Conceição dos Bugres, e apresentar ao público diferentes fases de sua produção artística. A amizade começou entre o fim de 2015 e o início de 2016, quando Gleiner encontrou Ilton em frente ao antigo Hotel União, na Rua Calógeras.

Ele já admirava as pinturas, mas ainda não havia conseguido adquirir nenhuma. O encontro despretensioso se transformou em uma relação de amizade e aprendizado sobre o universo das artes. “Quando eu conheci ele, estava na frente do hotel onde ficava. Eu cheguei, encostei o carro e já fomos conversando. O Ilton era uma pessoa muito de boa, como todo mundo fala. Não tinha distinção de esse é rico, esse é pobre. Para ele, não tinha isso. Chegava, já ia conversando, não tinha cerimônias”, recorda.

Foi também por influência de Ilton que Gleiner passou a se interessar mais pelo colecionismo. O artista explicava como funcionavam as negociações e compartilhava conhecimentos sobre pinturas e antiguidades. Hoje, o amigo possui aproximadamente 60 telas, adquiridas ao longo dos anos, algumas diretamente com o pintor e outras de antigos proprietários. “Eu já gostava das obras muito antes de conhecer ele. Sempre gostei, mas nunca tinha tido a oportunidade de comprar. Depois que conheci, ele foi me explicando mais sobre arte, como funcionava a questão de compra e venda.

Foi aí que comecei a gostar mesmo de antiguidades e das telas, da questão de colecionar”, conta. Para a exposição, Gleiner selecionou pinturas de diferentes períodos, embora o espaço disponível tenha limitado a quantidade de obras. Algumas telas são grandes e exigiriam estruturas especiais para a montagem. A intenção, segundo ele, não era apenas mostrar os trabalhos mais conhecidos, mas permitir que os visitantes percebessem as transformações no estilo do artista. “Eu queria juntar várias séries no decorrer dos anos de vida dele.

Só que consegui colocar uns 50%, 60% do que imaginava, porque ainda tem séries que não consegui, que são lá do início da carreira. Eu cheguei a uma tela que era de 1969 e já fiquei sabendo de outra de 1957. Essa ainda vou ver se consigo negociar”, explica. Entre as obras escolhidas estão pinturas de “Cores e Mitos”, uma das séries mais conhecidas de Ilton, marcada por figuras femininas, cores intensas e elementos fantásticos inspirados no imaginário regional. A mostra também reúne trabalhos de “Seres Extraordinários” e outras fases da produção.

Uma das peças do acervo de Gleiner pertence à série “Crepúsculo”, produzida em 2017, pouco antes da morte do pintor. “Ele veio aqui para Campo Grande e eu comprei dele essa série, que é ‘Crepúsculo’. Mas ele não conseguiu divulgar e eu ainda também não consegui mostrar essa última série que ele fez. É uma série única”, afirma. A escolha de organizar a homenagem tem uma razão afetiva. Gleiner acredita que a trajetória de Ilton perdeu visibilidade desde sua morte e considera necessário criar oportunidades para que novas gerações conheçam o trabalho do artista.

“Eu quis trazer para relembrar ele, porque desde que faleceu ficou esquecido. Ele já estava um pouco esquecido antes, mas depois que faleceu não se falou mais nele. Eu tenho outros artistas, tanto daqui quanto de fora, mas o Ilton é especial. Não é só pela pintura, é pela pessoa que ele era, pela amizade e por tudo que aprendi com ele”, relata. Uma das lembranças mais marcantes do colecionador é ter acompanhado Ilton enquanto pintava. Gleiner conta que possui 4 ou 5 telas produzidas na sua presença e que chegou a escolher as cores de uma delas.

Esses trabalhos, todos assinados pelo artista, tornaram-se peças que ele não pretende vender. “É incrível, porque do nada surge uma figura, sabe? Ele passava a tinta e a figura aparecia. Fazia tudo à mão livre, não precisava fazer aquele desenho detalhado antes para depois pintar. Uma telinha pequena ele fazia em 30 minutos. Teve uma que eu até pedi as cores e ele autografou tudo. Aí essa não tem nem como vender”, diz. Nascido em Ponta Porã, em 1944, Ilton Antunes da Silva construiu grande parte da carreira em Campo Grande.

Filho de Conceição Freitas da Silva, a Conceição dos Bugres, cresceu em uma família ligada à arte. Autodidata, começou oferecendo pinturas de casa em casa e, posteriormente, manteve ateliês que se transformaram em pontos de encontro de artistas e admiradores. Suas obras retratavam trabalhadores do campo, paisagens, personagens populares e elementos da cultura regional. Ao longo da carreira, experimentou diferentes técnicas, cores e formas de representar o cotidiano sul-mato-grossense.

Para Gleiner, uma das principais características de Ilton era a capacidade de criar uma identidade própria, reconhecida imediatamente por quem conhecia suas pinturas. O colecionador lembra que o artista também preparava misturas de tintas para alcançar tonalidades específicas. “Ele antigamente usava umas tintas que chegava a fazer. O verde era um verde mais sóbrio, não era tão brilhante, mas destacava. Ele tinha um estilo próprio. Já faleceu, mas deixou a marca dele nas pinturas.

Quem conhece o Ilton, só de bater o olho já sabe que é uma obra dele”, afirma. O que ficou - Ilton morreu em 2018, aos 76 anos, em Joinville (SC), depois de 5 dias internado com pneumonia e anemia. O corpo foi levado para Mato Grosso do Sul, onde ocorreu o velório no Marco (Museu de Arte Contemporânea), em Campo Grande. Gleiner conta que estava viajando quando recebeu a notícia e sequer sabia da internação do amigo. “Foi muito ruim. Eu nem sabia que ele estava internado.

Uma pessoa de uma reportagem me ligou para saber, e eu estava viajando. Falei que não estava sabendo de nada. Depois, quando fui entrar nas redes sociais, vi o que tinha acontecido. Foi muito triste, porque o tempo que conheci ele foi curto”, recorda. A montagem da exposição também exigiu esforço financeiro e pessoal. Gleiner procurou diferentes locais antes de conseguir autorização para usar o espaço do Hotel Indaiá. Segundo ele, um dos estabelecimentos chegou a cobrar R$ 3 mil por dia para receber as obras, enquanto apenas a colocação de molduras em algumas telas custou quase R$ 2 mil.

“O Indaiá foi o único hotel que me atendeu de pronto. Não ficou enrolando, não falou para fazer projeto. Conversei com a gerente, ela gostou da ideia e liberou. Teve hotel que me cobrou R$ 3 mil por dia. Imagina ficar 10 dias, seriam R$ 30 mil. É impossível. E são hotéis que preferem colocar uma gravura, uma foto impressa de boi, do que ter um artista”, critica. Gleiner pretende continuar reunindo obras de Ilton e ampliando o acesso do público à produção do amigo. A exposição está disponível até o fim do mês, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h.

Fonte: Campo Grande News

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