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Com guarani e até desenho de gatinha, Marlene acolhe quem chega à perícia

Marlene Ortiz se sentou ao lado de uma criança que não queria interagir, pegou papel e lápis e começou a desenhar uma gatinha. A resposta veio também em forma de desenho. Depois daquela aproximação, a criança conseguiu seguir para o exame na Polícia Científica de Amambai. “Quando a criança chega muito irritada, ela brinca e vai se acalmando. Depois dá para chamar para fazer o exame”, contou. Indíg

Redação Diário Pantanal

11/10/2026, 12:00 · Atualizado em 12/10/2026, 20:08

Com guarani e até desenho de gatinha, Marlene acolhe quem chega à perícia

Marlene Ortiz se sentou ao lado de uma criança que não queria interagir, pegou papel e lápis e começou a desenhar uma gatinha. A resposta veio também em forma de desenho. Depois daquela aproximação, a criança conseguiu seguir para o exame na Polícia Científica de Amambai. “Quando a criança chega muito irritada, ela brinca e vai se acalmando. Depois dá para chamar para fazer o exame”, contou. Indígena, pedagoga e técnica de enfermagem, Marlene nasceu, cresceu e continua vivendo em uma aldeia do município.

Desde 2024, atua na URPI (Unidade Regional de Perícia e Identificação), por meio de uma parceria com a prefeitura. Ali, leva a experiência de quem já trabalhava com crianças, mulheres, gestantes e idosos na própria comunidade. Falar guarani permite que ela converse com pessoas que chegam sem conseguir explicar em português o que precisam ou compreender as orientações recebidas. Mas, segundo Marlene, a identificação também ajuda a estabelecer confiança. “Quando chegam aqui e encontram uma pessoa indígena, elas confiam mais.

Conversam, tiram dúvidas e falam comigo. Eu ajudo nos exames e também no atendimento do RG, porque muitos indígenas têm dificuldade quando chegam ao serviço”, relatou. Sua presença se tornou uma referência para famílias que procuram a unidade. Algumas chegam para solicitar documentos. Outras precisam de orientações sobre exames de DNA ou enfrentam a morte de um parente. “Se o meu povo indígena chega, já me procura. Talvez eu não esteja aqui, mas me chamam para conversar”, disse.

Nessas situações, Marlene ajuda a transmitir informações e esclarecer dúvidas. Também é procurada pelos servidores quando precisam compreender o que foi dito em guarani. Seu auxílio já foi necessário para entender mensagens apresentadas à equipe em atendimentos fora da unidade. Com pessoas que chegam com medo, insegurança ou sofrimento, a formação e a experiência na aldeia contribuem para encontrar uma maneira de se aproximar. No caso da criança, foi preciso começar pelo desenho, antes das perguntas.

Nos atendimentos relacionados à violência, Marlene atua na comunicação e no acolhimento. Os exames e os procedimentos de produção da prova ficam sob responsabilidade dos profissionais da Polícia Científica. O trabalho ocorre em um município onde 9.988 habitantes são indígenas, o equivalente a 25,4% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Amambai tem o terceiro maior contingente indígena de Mato Grosso do Sul e reconhece o Guarani Kaiowá como língua cooficial desde 2024.

Além de moradores de Amambai, a unidade recebe demandas de Coronel Sapucaia, Paranhos, Sete Quedas e Tacuru. Marlene diz que sua disposição para ajudar se estende a quem precisar. “Eu vejo que muitas pessoas têm dificuldade. Me colocaram aqui para ajudar a minha comunidade, mas também ajudo qualquer pessoa que precise. Eu gosto de ajudar. Se precisar, estou aqui”, afirmou. *Texto com informações da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul.

Fonte: Campo Grande News

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