Cabelo maluco de idosos transforma histórias em penteados
Quem disse que a brincadeira do cabelo maluco é coisa de criança? Em Campo Grande, os idosos do Asilo São João Bosco resolveram provar que a criatividade não tem idade e transformaram os cabelos em verdadeiras homenagens às próprias histórias. Teve violão para recordar os tempos de músico, peixinhos para lembrar a vida de pescadora, baralho para quem adora uma partida e até acessórios de tricô. A
Redação Diário Pantanal
20/10/2026, 17:00

Quem disse que a brincadeira do cabelo maluco é coisa de criança? Em Campo Grande, os idosos do Asilo São João Bosco resolveram provar que a criatividade não tem idade e transformaram os cabelos em verdadeiras homenagens às próprias histórias. Teve violão para recordar os tempos de músico, peixinhos para lembrar a vida de pescadora, baralho para quem adora uma partida e até acessórios de tricô. A atividade faz parte das comemorações dos 103 anos da instituição e mostrou que, por trás de cada penteado diferente, existe uma lembrança que merece ser contada.
A brincadeira, que costuma fazer sucesso nas escolas, ganhou uma versão especial para os moradores. Em vez de simplesmente montar penteados engraçados, a proposta foi criar acessórios que representassem a personalidade, os antigos trabalhos e os passatempos de cada participante. Assim, os idosos puderam compartilhar um pouco de suas trajetórias por meio de pequenos objetos colocados sobre a cabeça. O resultado foi uma mistura de criatividade, memória e bom humor, com direito a enfeites preparados especialmente para a ocasião.
A professora de artes Isilene Gomes Magalhães, de 62 anos, explica que a atividade foi escolhida para integrar a programação de aniversário da instituição, que acompanha a história de Campo Grande há mais de um século. Para ela, o cabelo maluco vai muito além de uma brincadeira visual. “Esse projeto está sendo desenvolvido em comemoração aos nossos 103 anos. A nossa história nasceu junto com Campo Grande. Nossa cidade tem 126 anos, então há 103 anos nós atendemos a sociedade campo-grandense.
Para comemorar essa semana, pensamos nessa brincadeira do cabelo maluco, que não é só uma brincadeira, mas atrás de cada adereço tem uma história”, conta. Segundo Isilene, a escolha dos acessórios levou em consideração detalhes que fazem parte da identidade de cada morador. Alguns enfeites lembravam profissões exercidas no passado, enquanto outros representavam atividades que continuam presentes no cotidiano dos idosos. “Vocês vão ver que tem umas que têm peixinho, porque ela era pescadora.
Tem o senhor que tem no chapéu baralho, ele joga baralho, gosta de baralho e de dados. O outro foi músico. Então tem uma história de vida atrás de cada adereço”, explica a professora. A ideia era permitir que cada participante se reconhecesse na própria fantasia, sem perder aquilo que o torna único. Um dos exemplos é Paulo Nello dos Reis, de 70 anos, que aproveitou a brincadeira para recordar uma fase da vida dedicada à música. Seu acessório foi inspirado no violão, instrumento que fez parte de sua trajetória artística.
Há cerca de 30 anos, ele tocava em um grupo de Araraquara (SP) e chegou a se apresentar em diferentes cidades paulistas. “Ele simboliza que há uns 30 anos eu era um músico. Eu tocava num grupo lá na cidade de Araraquara, no interior, e toquei quase no estado de São Paulo inteirinho. Eu tocava violão clássico e guitarra jazz rock. Então, para me lembrar esse violão, para lembrar essa época de quando eu era músico”, relata. Paulo também participou da elaboração do próprio acessório, dando sugestões sobre como gostaria que o violão fosse representado.
Durante a conversa, mostrou que o bom humor continua tão presente quanto as lembranças dos tempos de palco. Questionado se a música ajudava a conquistar garotas, respondeu com uma risada e admitiu que sim, um pouco. Ao falar sobre o restante da programação do aniversário, também não perdeu a oportunidade de brincar. “Agora é só comer, se tiver alguma coisa”, respondeu. Para ele, o enfeite acabou sendo uma maneira descontraída de revisitar uma época importante da juventude.
Aos 83 anos, Leci Brito Pereira também entrou na brincadeira, mas não achou seu penteado tão maluco assim. O acessório escolhido para ela fazia referência ao tricô, atividade que conhece muito bem e que continua fazendo parte de sua vida. Quando perguntaram o que havia de diferente no cabelo, respondeu com naturalidade: “Ah, ele é normal”. A reação divertida combinava com a personalidade de quem passou boa parte da vida trabalhando com as mãos e transformando linhas em diferentes peças.
Leci contou que sabe produzir praticamente qualquer coisa com tricô e que suas habilidades não ficaram no passado. “Eu faço qualquer coisa de tricô. Blusa, casaco, toalha de mesa”, enumerou. Questionada se ainda se considera uma artista, respondeu sem hesitar: “Continuo sendo”. Ela também confirmou que continua costurando. Herta de Moura carrega no cabelo maluco uma lembrança dos tempos em que vivia na fazenda e ajudava o marido na criação de gado em Mato Grosso do Sul. A tiara escolhida representa uma parte importante de sua história, marcada pelo trabalho no campo e pela vida ao lado da família.
“Meu marido adorava criar gado e foi muito feliz com a criação. Eu estava sempre junto, tocando gado e tudo, e fomos acostumando com esse serviço”, recorda. Ela conta que também criavam galinhas e porcos e mantinham funcionários para ajudar nas atividades da propriedade. Com a perda do marido, Herta viu a rotina mudar. Parte da propriedade ficou para ela e outra parte para o filho, mas, com o passar dos anos, as terras acabaram vendidas. Mais tarde, ela se mudou para Campo Grande, onde o filho mora, e passou a viver no asilo.
Apesar das mudanças, guarda com carinho as lembranças da vida rural e reconhece na tiara uma homenagem à própria trajetória. “Simboliza, sim, simboliza as criações, porque eu criei, ajudei a tocar o gado”, afirma. Durante a brincadeira, mostrou satisfação ao recordar o passado e resumiu o momento com poucas palavras: “Estou muito feliz”. Voluntários - Para que os penteados saíssem do papel, voluntários e estudantes também colocaram a mão na massa. Entre eles estava Waleska Fernandes Nunes, acadêmica de Nutrição da Unicesumar, que participou da produção dos enfeites.
A preparação exigiu criatividade e cuidado para que os objetos ficassem bonitos, mas também fossem confortáveis para os idosos. A equipe utilizou materiais como EVA colorido, versões com brilho, cola quente, arcos de cabelo e presilhas revestidas. A escolha dos arcos teve uma razão prática: alguns moradores têm pouco cabelo, o que dificultaria prender os acessórios diretamente nos fios. Waleska explica que o trabalho começou com uma quantidade menor de enfeites, mas cresceu conforme a equipe percebeu a possibilidade de incluir mais participantes.
“Foram mais ou menos uns 30 arquinhos e presilhas. Foram usados materiais de EVA colorido, que tem brilho, cola quente e arquinho. Também presilhinhas encapadinhas, para não machucar. Como é difícil mexer, algumas quase não têm cabelo para a gente prender, aí tivemos a ideia de fazer só de arquinho mesmo. Achei maravilhoso, uma ideia fantástica”, conta. Com a participação de outras acadêmicas, voluntários e funcionários, a produção chegou a aproximadamente 60 acessórios, segundo o levantamento feito durante a atividade.
A criação dos enfeites também contou com informações compartilhadas pela equipe da instituição. “Foi através dela que a gente soube que cada idoso tem uma personalidade, uma história. Uma era pescadora, outro gostava de carrinho, outro era trabalhador. Então foi contada a história de cada um, quem gosta de bonequinha, de bichinho, dessas coisas bonitinhas. Foi a partir de conversar com ela que abriu mais ideias”, explica. O cuidado ajudou a transformar uma atividade coletiva em uma homenagem individualizada.
Serviço: A programação começou na segunda-feira (19) e segue durante a semana, com atividades voltadas aos moradores. Para quarta-feira (21), está prevista uma apresentação de circo. Na sexta-feira (23), haverá um churrasco comemorativo, com almoço, bolo e parabéns. Já no sábado (24), a programação inclui contação de histórias com o Sesc e uma celebração religiosa na capela da instituição. A proposta é oferecer diferentes momentos de convivência e diversão ao longo dos dias de aniversário.
Fonte: Campo Grande News


