Bunker, arsenal e tecnologia: como 3 irmãos comandavam tráfico na fronteira
A Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira (4) para cumprir ordens judiciais em sete estados, mira uma organização criminosa que tinha em sua cúpula uma família de Ponta Porã, cidade vizinha a Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Três irmãos foram identificados como líderes do grupo, com a participação de filhos e outros parentes, responsáveis por uma movimentação financeira superior a R$ 500 m
Redação Diário Pantanal
04/11/2026, 11:15

A Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira (4) para cumprir ordens judiciais em sete estados, mira uma organização criminosa que tinha em sua cúpula uma família de Ponta Porã, cidade vizinha a Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Três irmãos foram identificados como líderes do grupo, com a participação de filhos e outros parentes, responsáveis por uma movimentação financeira superior a R$ 500 milhões em dois anos. A investigação jornalística do Campo Grande News apurou que o grupo mantinha ligações com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), além de atuar em parceria com o narcotraficante boliviano Jorge Granier Ruiz, conhecido como "Narcofantasma" e "Rey de los Cielos", preso em Jaraguari em março de 2023 e posteriormente extraditado para a Argentina.
A organização atuava desde pelo menos 2018, com estrutura familiar, divisão de tarefas e apoio de agentes públicos. O núcleo principal concentrava suas atividades em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina. Estrutura - Drones, equipamentos de comunicação, veículos blindados e sistemas de contrainteligência eram usados para proteger as lideranças e dificultar a atuação policial. O grupo também mantinha estruturas semelhantes a bunkers, utilizadas para abrigar integrantes armados com metralhadoras calibre .50, lança-foguetes, fuzis, granadas e pistolas, além de coletes balísticos e roupas táticas.
Conforme o esquema descoberto, drogas e armas eram adquiridas na Bolívia, no Peru e no Paraguai e entravam no Brasil pela fronteira de Mato Grosso do Sul. As cargas eram distribuídas pelo Estado e seguiam principalmente para São Paulo, Paraná e Santa Catarina. O Brasil também servia como base logística para armazenamento, transporte e envio de drogas ao mercado europeu, especialmente Espanha e Portugal. Entre 2022 e 2026, as investigações relacionaram o grupo a pelo menos 12 apreensões e flagrantes, com mais de 2,5 toneladas de cocaína, 8 toneladas de maconha, 50 quilos de dry, além de fuzis e pistolas.
Uma das apreensões ocorreu em Bataguassu, em outubro de 2025, quando policiais encontraram mais de 2 toneladas de argamassa misturada com cocaína em um caminhão frigorífico. Em janeiro deste ano, foram apreendidas 8 toneladas de maconha, além de arma e munições importadas, em Água Clara. Desvio de cocaína - Uma das descobertas mais graves da investigação envolve o desaparecimento de aproximadamente 2 toneladas de cocaína do depósito da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), em Campo Grande.
O delegado que comandou a unidade e também o Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Resgate a Assaltos e Sequestros) permitia a entrada de integrantes da organização na delegacia para retirar drogas apreendidas. Trata-se de Hoffman D'Ávila, que está preso por outra investigação envolvendo o mesmo tipo de comportamento criminoso. A cocaína, de alto grau de pureza, era vendida por valores entre R$ 8.500 e R$ 10.500 o quilo. A investigação aponta que o delegado teria recebido aproximadamente R$ 15 milhões em dois anos, além de veículos, uma mansão no condomínio Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis (GO).
Para esconder o desvio, integrantes do grupo preparavam uma mistura de cocaína de baixa pureza, fermento, amido de milho e outros produtos. A substância era testada para apresentar resultado positivo para cocaína e recebia embalagens semelhantes às originais. O material adulterado substituía a droga apreendida e posteriormente era encaminhado para destruição. Segundo a investigação, conversas, fotografias e vídeos mostram integrantes do grupo manipulando as substâncias e frequentando as dependências da Denar.
A fraude, segundo levantado, explorava falhas na fiscalização dos depósitos, já que os procedimentos de identificação da droga não permitiam verificar adequadamente seu grau de pureza. Policiais envolvidos - A investigação também identificou suspeitas de corrupção envolvendo policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Em troca de dinheiro e bens, esses agentes teriam fornecido informações sigilosas sobre rivais, monitorado veículos, imóveis e aparelhos eletrônicos e antecipado operações policiais.
Segundo a PF, as informações eram usadas para promover ameaças, incêndios, ataques armados e homicídios. Os servidores também são suspeitos de interferir em investigações, eliminar provas e facilitar a liberação de veículos e drogas apreendidas. Alvos - Entre os investigados, segundo levantou o Campo Grande News , está o empresário Adel Hassan Haidar, de Ponta Porã, integrante de uma família conhecida na região de fronteira. Ele é sócio-administrador da empresa Adel Hassan Haidar Ltda., que utiliza o nome fantasia Residencial Nossa Senhora e atua no setor de hospedagem e no comércio de veículos.
As autoridades ainda não detalharam a participação atribuída ao empresário nem confirmaram se ele integra o núcleo dos três irmãos apontados como líderes da organização. Em Campo Grande, a operação também teve como alvo o investigador da Polícia Civil Douglas Tobias, que já havia sido preso na Operação Infiltrados, e o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe de duas delegacias destinadas a combater o crime organizado no Estado. Patrimônio milionário – Além da movimentação financeira superior a R$ 500 milhões em dois anos, a investigação identificou patrimônio de mais de R$ 500 milhões associado às atividades criminosas.
A Justiça determinou o sequestro de aproximadamente 160 imóveis, entre mansões, apartamentos de luxo, um haras e seis fazendas que somam mais de 5 mil hectares em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas. Também foram atingidos pelas medidas judiciais mais de 150 veículos, incluindo automóveis de luxo, além de lanchas e cavalos de raça. Houve ainda determinação de bloqueio de até R$ 300 milhões em contas bancárias vinculadas a 170 pessoas físicas e jurídicas. Segundo a Receita Federal, o dinheiro circulava por contas de investigados, operadores financeiros, empresas de fachada e negócios simulados para ocultar sua origem.
Transferência para presídio federal – A operação cumpre 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Rondônia, Goiás e Santa Catarina. Também foram determinadas três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis. A Justiça autorizou a inclusão cautelar de 11 integrantes apontados como lideranças da organização em presídios federais, diante da periculosidade atribuída ao grupo.
Também determinou a difusão vermelha na Interpol dos mandados de prisão de 26 investigados. As ordens judiciais foram expedidas pela 3ª Vara Federal de Campo Grande. A ofensiva policial mobilizou 500 policiais federais e 44 servidores da Receita Federal, com apoio de equipes táticas e 3 aeronaves. Os investigados poderão responder, conforme a participação individual atribuída a cada um, por organização criminosa, tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro, corrupção, peculato, falsificação de documentos, tortura e homicídio.
Fonte: Campo Grande News



