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A perversa mãe narcisista

Existe uma dor que não aparece nos exames, não deixa cicatrizes visíveis e, ainda assim, pode acompanhar uma pessoa durante toda a vida. É a dor de quem cresceu esperando o amor da própria mãe e aprendeu que, para recebê-lo, precisava agradar, obedecer e renunciar a partes de si. De quem procurou acolhimento e encontrou críticas, precisava de proteção e recebeu culpa, passou a infância tentando de

Redação Diário Pantanal

28/10/2026, 05:15

A perversa mãe narcisista

Existe uma dor que não aparece nos exames, não deixa cicatrizes visíveis e, ainda assim, pode acompanhar uma pessoa durante toda a vida. É a dor de quem cresceu esperando o amor da própria mãe e aprendeu que, para recebê-lo, precisava agradar, obedecer e renunciar a partes de si. De quem procurou acolhimento e encontrou críticas, precisava de proteção e recebeu culpa, passou a infância tentando descobrir o que havia de errado consigo para merecer tão pouco afeto justamente de quem deveria cuidar.

Para os filhos de mães com comportamentos narcisistas, uma das maiores dificuldades é explicar o que acontece dentro de casa. Aos olhos dos outros, essa mãe pode parecer amorosa, dedicada e irrepreensível. Na intimidade, porém, pode humilhar, controlar, manipular e desqualificar os próprios filhos. Quando tentam contar o que vivem, eles correm o risco de serem chamados de ingratos, exagerados ou mentirosos. Assim, aprendem a sofrer em silêncio, presos entre a dor que sentem e a necessidade de proteger a imagem materna.

É importante lembrar que nem toda mãe difícil possui transtorno de personalidade narcisista. O diagnóstico exige avaliação profissional. Ainda assim, comportamentos persistentes de manipulação, controle e falta de empatia podem causar feridas profundas, independentemente do nome que recebam. A mãe com traços narcisistas pode enxergar os filhos não como indivíduos com sentimentos e desejos próprios, mas como extensões de si mesma. Espera que correspondam às suas vontades, confirmem sua importância e preservem a imagem que construiu.

Quando obedecem, podem receber aprovação; quando discordam ou buscam independência, são tratados como egoístas, ingratos ou decepcionantes. Nesse ambiente, o amor se transforma em recompensa. A criança acredita que precisa ser perfeita para merecer carinho. Esforça-se para tirar boas notas, ajudar em casa, evitar conflitos e nunca decepcionar. Mas nada parece suficiente: as conquistas são diminuídas, os sentimentos invalidados e as comparações constantes alimentam a sensação de inadequação.

O filho cresce acreditando que precisa fazer mais, ser melhor e exigir menos para finalmente ser amado. A manipulação pode assumir diferentes formas: colocar irmãos uns contra os outros, eleger um favorito, expor intimidades, usar confidências como armas ou transformar o sofrimento do filho em uma ofensa pessoal. Quando a criança manifesta tristeza, a mãe pode reagir como se estivesse sendo atacada. Quando estabelece limites, pode ser acusada de abandono. Dessa maneira, o filho aprende que até suas necessidades emocionais podem ser consideradas uma ameaça.

As filhas podem crescer sob críticas à aparência, à inteligência e às escolhas pessoais. Algumas enfrentam uma mãe que compete com elas ou tenta controlar sua autonomia, dificultando a construção da própria identidade. Os filhos homens, por sua vez, podem aprender a esconder a vulnerabilidade, buscar reconhecimento por meio do sucesso ou assumir a responsabilidade de sustentar emocionalmente a mãe. Em ambos os casos, o desenvolvimento pessoal fica comprometido quando o amor depende de corresponder às expectativas maternas.

As consequências podem atravessar a vida adulta. Quem cresceu tentando antecipar o humor da mãe pode se tornar excessivamente vigilante, temendo desagradar as pessoas. Outros desenvolvem perfeccionismo, necessidade constante de aprovação, dificuldade para confiar ou culpa ao dizer não. Alguns assumem responsabilidades demais, toleram relações abusivas ou confundem amor com sacrifício, porque aprenderam que manter alguém por perto exige abandonar as próprias necessidades. Outra consequência dolorosa é a perda da confiança na própria percepção.

Quando a mãe nega acontecimentos, distorce conversas ou afirma que o filho inventa tudo, ele pode passar a questionar a própria memória e seus sentimentos. Mesmo adulto, pergunta-se se está exagerando ou se realmente tem motivos para sofrer. Depois de tantos anos ouvindo que sua dor não é legítima, pode precisar de muito tempo para voltar a confiar em si mesmo . Mas talvez a ferida mais profunda seja o luto pela mãe que nunca existiu da maneira desejada. O filho não sofre apenas pelo que viveu, mas também pelo que lhe faltou: o abraço espontâneo, a palavra de orgulho, a proteção sem cobranças, a liberdade de ser quem é sem medo de rejeição.

É um luto silencioso, porque a mãe continua viva e presente. O filho pode ter construído uma carreira, constituído família e conquistado independência, mas ainda guardar a esperança de ouvir um pedido sincero de desculpas ou receber o reconhecimento que sempre buscou. Talvez continue tentando provar que é bom o suficiente, acreditando que, se encontrar as palavras certas ou fizer mais um esforço, finalmente será compreendido . Entretanto, algumas mães nunca reconhecem o sofrimento que causaram.

Respondem às tentativas de diálogo com justificativas, acusações, silêncio punitivo ou inversão de responsabilidades. Aceitar que esse reconhecimento talvez nunca venha é uma das etapas mais dolorosas, porque significa abandonar não o desejo de ter sido amado, mas a esperança de que o passado possa ser reparado pela pessoa que o feriu. Isso não significa que todo vínculo precise terminar. Cada história é diferente. Em algumas situações, é possível construir uma relação mais saudável quando existe responsabilidade e mudança consistente.

Em outras, reduzir o contato ou estabelecer distância é necessário para preservar a saúde emocional. O vínculo de sangue não elimina o direito à dignidade, e estabelecer limites não é necessariamente uma forma de punição: pode ser uma maneira de interromper o ciclo de humilhação e culpa. A terapia pode ajudar os filhos a compreender suas experiências, reconstruir a autoestima e aprender a diferenciar amor de submissão, responsabilidade de culpa e generosidade de autoabandono.

O objetivo não é obrigá-los a odiar ou perdoar a mãe, mas permitir que façam suas próprias escolhas sem permanecer aprisionados às feridas da infância. Porque existe uma pergunta que acompanha muitos desses filhos durante anos: o que eu fiz para não ser amado como precisava? Talvez a resposta mais difícil e libertadora seja esta: uma criança não deveria precisar conquistar o direito ao afeto. Não precisava ser perfeita, salvar a mãe de suas frustrações ou abrir mão da própria identidade.

Era apenas uma criança, e não era responsável pelas limitações emocionais de um adulto. As marcas dessa experiência podem permanecer, e algumas lembranças continuarão doendo. Há momentos em que a ausência do amor materno se torna especialmente evidente, despertando tristeza por tudo aquilo que poderia ter sido. Nenhuma explicação restitui a infância perdida, e não é necessário romantizar o sofrimento para seguir em frente. O filho não precisa agradecer pelas humilhações, justificar o comportamento da mãe ou perdoar antes de estar preparado.

Pode sentir raiva, saudade, tristeza e até amor por alguém que também lhe fez mal. Sentimentos contraditórios não anulam a realidade do sofrimento. A liberdade começa quando ele compreende que não precisa receber o reconhecimento materno para reconhecer o próprio valor. Quando percebe que pode dizer não sem ser uma pessoa ruim, afastar-se sem deixar de ter sentimentos e construir relações nas quais o amor não seja uma dívida a pagar. A liberdade começa quando ele compreende que não precisa receber o reconhecimento materno para reconhecer o próprio valor.

Quando percebe que pode dizer não sem ser uma pessoa ruim, afastar-se sem deixar de ter sentimentos e construir relações nas quais o amor não seja uma dívida a pagar. Talvez a reparação possível comece quando o filho deixa de tentar ser escolhido por quem nunca conseguiu acolhê-lo como precisava e começa a escolher a própria vida. Quando olha para a criança que foi e entende que ela não era difícil demais, insuficiente demais ou indigna de amor. Apenas precisava de uma mãe capaz de enxergá-la, respeitá-la e amá-la sem transformá-la em responsável pelas próprias carências.

Há dores que não desaparecem por completo. Mas podem perder intensidade, deixar de ocupar todos os espaços e já não comandar cada decisão. Talvez a tarefa não seja esquecer a mãe que faltou, mas aprender a não continuar abandonando a si mesmo em nome dela. Porque o filho que passou a vida inteira tentando merecer amor também merece descansar. Não precisa continuar pagando com a própria felicidade por uma dívida que nunca contraiu. (*) Cristiane Lang é psicóloga clínica especialista em Oncologia pelo Instituto Albert Einsten em SP.

Fonte: Campo Grande News

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